Estava bem tranquila em relação ao parto. Realmente é uma caminhada ao longo da gravidez e o parto é mais um degrau..
Com 41 semanas e 2 dias estava a ficar preocupada que ele nunca mais nascia..Apesar de estar dentro do tempo, começamos a sentir a pressão...
Minha mãe tinha chegado de Portugal para a ocasião. Como ele não nascia a minha mãe pintou o quarto todo do Vicente com balões de ar, e deu para curtir a minha mãe um pouco..o que foi ótimo.
Na virada da lua, (não sei se é verdade que influência ou não) passei o dia encolhida e com pouca vontade de me mexer. Estava o máximo de inchada e de tarde só queria estar na cama abraçada ao meu marido. Ele passou a noite a fazer massagem nos meus pés porque doía muito. As três da manha quando fomos finalmente dormir, meu marido colocou a mão na barriga e perguntou se o nosso filho queria nascer. Nesse momento a bolsa rebentou, ouvi um som oco. Imediatamente nos levantamos. Comecei logo com contrações seguidas. Ligamos à Heloísa, que nos disse para ficarmos calmos, e quando a dor viesse de forma regular para ligar de novo. As vezes, depois da bolsa rebentar, não se começa logo em trabalho de parto. Mas eu tinha dores de seguida, fui para o chuveiro e depois uma dor de barriga daquelas...
Chamaram a Helo e umas 5h ela chegou na nossa casa. Isso foi ótimo porque uma das coisas que me deixavam nervosa era a hora de ir para o hospital...
A Heloísa escutou o bebe e umas 6h a dor começou a apertar e fomos para o hospital. Fomos de carro, o Fabio a dirigir a Helo do meu lado. Cada contração ele encostava o carro e a Helo cantava para mim. O dia estava lindo, uma manhã com cheiro de chuva como eu gosto. Passamos a praia do flamengo e o céu cheio de cores. Ficou gravado na minha pele essa imagem. Chegando ao hospital a Fernanda chegou logo.
Não me queriam deixar subir a pé, tive que ir no elevador, sentada numa cadeira de rodas, o que foi chato porque já estava com muitas dores.. A ultima coisa que queria era estar sentada..
Fomos para a sala humanizada do hospital.. Fiquei uns tempos deitada depois em pé e sentada .. A dor foi começando a apertar. Eu pensava que não seria algo do outro mundo, que já tinha passado por muita coisa na vida... Mas na verdade dói demais kkkk
Durante todo o parto a única coisa que a Fernanda e a Helo fizeram foi ouvir o coração do bebé. Ninguém me cortou (epistomia) nem raspou nem nada. a Fernanda fez o toque só uma vez, e com todo o respeito do mundo: Disse que ia fazer que doía um pouco para eu respirar fundo. E mesmo assim foi desconfortável. Imaginem, em hospitais que se faz isso de hora em hora sem nenhum cuidado...
A Helo levou uma banheira e entrei já com muitas dores. Ai começou a doer demais. Essa foi a pior parte. Uns 6cm de dilatação. Ai é que foi berrar. Gritei tudo o que minha alma podia. Eu precisava de gritar, todo o medo toda a angustia tudo. Pensei que ia morrer (vim depois a saber que isso é normal) chorava, dizia que não ia aguentar que não queria mais. O Fabio chorou de emoção e acho que pena também, mas eu não lembro. Nessa altura entre as contrações eu dormia e sonhava. Por uns 2 minutos. Sonhava com a minha avó, que eu brincava na casa dela , sonhei com o meu nascimento, a minha mãe a passar o mesmo que eu, sonhei com minha tia Luisa. Cenas, cheiros e cores de infância.
Eu gritava o nome do Vicente e pedia para ele me ajudar .Nessa altura eu achei que não ia aguentar e a Helo perguntou se queria anestesia. Com toda a minha força confiei na Helo e na Fernanda, que elas saberiam o que fazer se eu passasse mal e pensei no meu bebe. Não quis e depois realmente a dor diminuiu. Acho que além da dor eu também fiquei um pouco desesperada. Passado esse momento eu acalmei. Eu sentia que uma perna ia saltar para um lado e outra para outro e que eu nunca mais teria um corpo unido kkkk que haveria de ser só tronco.. Mas depois dessa parte o resto foi menos doloroso..
Eu fiz uma coisa errada, eu achava que tinha que fazer força desde o inicio, então la no final tremia e não tinha mais força..
Saí da banheira porque precisava de me movimentar. Estava também muito abafado.
Não gostei muito do Hospital. Ouvia muitos barulhos, vindo do corredor, da cafetaria e etc. Num momento de extrema dor ouvi alguém dizer: "Passa a marmita, cara!": No momento de expulsar o Vicente nos últimos minutos, entra uma enfermeira no quarto, que, apesar de ter tido cuidado, bloqueou ali o processo. Gritei com toda a força: Sai daqui!! Este Hospital é uma merda!!" kkk
No meio do processo, na verdade, qualquer barulho ou som é muito agressivo. Não é só a dor. Não é uma dor normal, é uma coisa meio fora deste mundo. Não estava completamente consciente, nem inconsciente. É uma mistura. E os sons de fora, trazem-te á realidade. É como tomar um cogumelo no meio da cidade.. kkk
De toda a preparação, faltou preparar a minha mãe e a minha sogra, que se assustaram de me ouvir gritar. Talvez tivesse que ter dito alguma coisa antes mas eu também não sabia que ia ser assim..
Quando o Vicente finalmente nasceu, foi a maior emoção deste momento.Fomos para um banco e tive o Vicente de cócoras, foi a posição que achei mais confortável,se é possível dizer isso.. Esse é realmente o momento mais marcante da minha vida. Ele nasceu e veio para o meu colo, eu e o Fabio olhamos para aquele corpinho, com uns olhinhos bem abertos, pela primeira vez. Até agora, 3 meses depois me emociono de pensar nesse momento. Começou logo a mamar e o Fabio cortou o cordão umbilical. A Fernanda tirou a minha placenta e mostrou-me: Achei linda: Parecia um pulmão vermelho e pulsante. Despedi-me dela, que alimentou o meu bébé durante 9 meses.
A experiência é desestruturadora fisicamente, e como disse gritei que nem uma perdida e achei que ia morrer, mas por ter sido tão acompanhada e protegida, quando o Vicente nasceu senti-me logo fortalecida. Depois de ter passado por isso, sei que vou sobreviver e ultrapassar qualquer coisa. Inclusive, foi isso que me deu força durante o pós parto. Não me lembro mais da dor. Já ouvi dizer que há uma hormona responsável por esquecermos a dor. Só me lembro que dói mundo mas não ficou gravado no meu corpo.
No primeiro segundo que o Vicente ficou no meu colo senti um estranhamento. Tive que devagar tocar naquele corpinho para sentir que esse era o meu amorzinho: Logo em seguida senti todo o amor possível. Ficamos os três durante um tempo abraçados sem que ninguém interferisse. Isso foi muito importante para mim. Depois enquanto a Fernanda me dava uns pontos, o Fabio foi com a pediatra pesar o Vicente. Eu sabia que ele estava bem, mas deu-me uma agonia de o ver sair..também nessa parte, a pediatra me respeitou e fez todo o processo devagar, com calma e com o meu consentimento. Parece m pouco exagerado, mas naquele momento em que o corpo estava embebido de hormonas as coisas funcionam de outro jeito.
Passaria tudo de novo. Tive o parto que queria ter. Saí do Hospital fortalecida. Passado dois dias estava a andar normalmente e quase sem dor. ( Passados 3 meses não sinto nenhuma diferença de antes. Os pontos foram tão bem dados pela Fernanda que nem sinto que se passou aqui alguma coisa)
Outra mudança: acho que antes de estar grávida eu achava que tinha que ser forte para qualquer coisa, o que me deixava numa situação desprotegida. ninguém é forte o tempo todo. Porém, no meu parto (como eu realmente queria estar bem) eu preparei todas as situações (excelente acompanhamento médico, psicológico, vinda da minha mãe e sogra, meu marido comigo em todo o processo) para conseguir ser forte para cuidar o melhor possível do meu filhinho.
O parto foi para mim uma experiência fantástica e transformadora. Emocionalmente abriu um canal espiritual. Agradeço muito por termos tido esta experiência, na qual o meu bebé nasceu quando queria e certamente com mais conforto do que em outras situações. Defendo todas as mulheres e os bebés, para que possam ter o parto que merecem
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