segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Normal ou cesária

Bom, esta coisa de cesária é moda no Brasil. Pelo que sei. Aqui é que há essa loucura, uma vez que médicos, como todos sabemos acham mais cómodo cortar sete camadas de tecido, para tirar um nenem que normalmente ainda não esta pronto se não já tinha saído. Além disso, como diz a Laura Gutman*, socialmente existe tanta dificuldade em aceitar o animal/natural em nós, que o parto foi transferido para uma parte mais "decente" e acima que é o abdómen.

Mais uma vez friso que tive a sorte de ter um acompanhamento pré parto incrível. Foi caro, mas valeu cada centavo para o resto da mina vida. Tive uma médica, a Fernanda Satty, e uma doula a Heloisa Lessa. É bom porque a Fernanda tem um acompanhamento médico (ultrassom, remédios , tive que tomar levotiroxina sodia para a tiróide por exemplo) e a Helo estava mais concentrada na parte emocional da coisa (ainda que as duas façam ambas). 
É bom dizer que o "parto" não se resume ao dia que o bebé nasce. Junto com minhas médicas, eu preparei (ou tentei) cada inquietação, do parto, do pós parto. Construí uma relação de confiança com elas. Tinha muito medo da depressão pós parto (depois da gravidez conturbada) e de não conseguir amamentar, por ouvir e ler tanta coisa ruim sobre isso. A Helo um dia falou: " mas tu tens-me a mim, não estás só".a partir dai eu pensei: Ta, a responsabilidade do pós parto é da Helo kkkk

 É neste ponto que a questão do parto humanizado faz toda a diferença para mim, mais do que se você vai acabar parindo pela vagina ou pelos ouvidos, devido a problemas "reais" que impossibilitem o parto. Aquelas pessoas respeitam não só o teu corpo e todo o processo, como a tua alma. (o "cordão em volta do pescoço", " muito estreita", "ainda não virou" são apenas exemplos (falsos) que os médicos que não querem fazer parto normal dão. Na maioria das vezes, são eles que aterrorizam as mulheres)

 A questão realmente  é que as mulheres ficam completamente abandonadas. A fragilidade de uma mulher que vai parir é imensa. O parto é transformador, mas tem que ser acompanhado (pode ser por mulheres mais velhas, por tradições culturais o que for). A questão do parto humanizado é questão de cuidado com a mulher e com o bébé. Mais do que quem tem dor a parir ou não tem, quem grita mais ou menos. 
Por exemplo, com 5 meses de gestação fiz uma eco. A médica  até simpatica, disse que tinha um "probleminha na placenta" mas que estava tudo bem. Eu perguntei o que era e ela respondeu: "Vamos rezar para que não seja nada!" e mais nenhuma explicação. Claro que eu chorei 1hora na calçada em frente ao hospital em pleno Leblon. Liguei para a dra Fernanda que disse que estava um pouco baixa mas que naquela fase era normal, que provavelmente iria subir, como de fato aconteceu. Este é o caso, que a médica da ultra não fez nada de mais, além de ser sem noção e me ter deixado super mal. Imaginem se essa fosse a minha médica?

Porque não fiz epidural? Sinceramente morro de medo de intervenções médicas. Quanto menos melhor. Se puder não tomar medicamento não tomo, por isso achei que era melhor para o meu filho e para mim não tomar e sò consegui por ter um acompanhamento tão bom, se não, não teria aguentado..Vale a pena ler sobre as vantagens de não ter nenhuma interferência medicamentosa no parto, a Helo tem um blog bacana: http://equipepartoecologico.blogspot.com.br/

Depois, que no parto humanizado eles deixam a mulher e o bebe (no caso o pai também) a 1a hora juntos. Nesse momentos as nossas hormonas estão no auge e facilitam a ligação com o bébé. O Vicente começou a mamar assim que nasceu. Não quer dizer que se não for assim não há conexão, quer sim dizer que facilitam. Também por isso a pediatra tem de ser do "grupinho" porque ela vai ficar a espera durante uma hora para pesar o bebe. Ninguém leva, nem aspira nem nada o bebé ate uma hora depois e leva 5 minutos.  Essas hormonas liberadas no trabalho de parto, mais uma vez facilitam no pós parto. 

Choca-me profundamente ver mulheres desamparadas, que na maioria nem sabem que estão... Médicos que não se preocupam minimamente,não preparam as mulheres para a transformação que vai acontecer e não estão preocupadas com o pós parto.Ou crenças idiotas que desvalorizam a mulher ("vai estragar o play do papai", esta frase é hedionda, e não estragada nada não!!)
  
Mais do que perguntar cesária ou normal ou humanizado é saber que a mulher terá o parto que ela quiser, se ela está informada, se é cuidada ou não. E sinceramente para mim ter parto da forma como foi, foi tão transformador que eu tenho pena que muitas mulheres nem sabem que essa possibilidade existe, por capricho médico, ou da porra de um sistema que não se preocupa com as mulheres e seus bebes.

*"A maternidade e o encontro com a sombra", vale a pena ler.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A GRAVIDEZ


Fiquei muito louca alucinada durante a gravidez. Mudei para o rio em janeiro, jà um pouco receosa da nova mudança (mais uma vez na minha vida. Não aguento mais mudança! Kk). Dei uma pirada no natal (época propensa) assim, fiquei com ataque de pânico, coisa que nunca tinha tido. Final de fevereiro descobri que estava gravida. Sempre quis ser mãe, mas quando vi aquele resultado queria chorar. Eu queria estar preparada, nao queria ser uma mae pirada, já imaginei o meu filho sentado na psicóloga a dizer: Sofro muito minha mãe é louca kkk, olha so a paranoia. Depois caiu a ficha (depois de 4 anos no brasil) que eu era "estrangeira" que eu nao era daqui. Passei dois meses a pedir desculpa à barriga, nessa altura ainda a barriga era o sujeito da minha fala, não o ser que se formava la dentro, talvez eu pedisse perdão a mim mesma. Tive algumas coisas chatas, enjoei, tive algumas viroses, tive 2semanas de labirintite (também nunca tinha tido), engordei 22kg apesar de tentar comer saudável. 

A minha capacidade mental foi para o espaço. Comecei logo a imaginar que me tornaria o que sempre critiquei (hoje em dia tb não critico mais): Uma "dona de casa". Mais uma vez me imaginei repetindo essa frase horrorosa: Eu adorava estudar, mas depois tive "as crianças e larguei". O espaço racional e de trabalho tão difícil de conquistar para as mulheres, que eu tanto me orgulhava iria escapar das minhas mãos. Aliada a uma dependência financeira total. Tudo isso, tive oportunidade de tratar na psicóloga. Graças à organização de fundo de apoio à mulher gravida chamada marido, dei-me ao luxo de curtir a minha invalidez mental, fazer psicóloga, hidroginástica para gestantes e ter tempo para dormir horrores. A única coisa que queria fazer eram tapetes. Fiz um monte e aprendi na net. Cada vez que tecia um ponto imaginava cada célula do meu nenem. Cada cor correspondia a um membro (braço, perna etc) e demorou 5 meses a terminar, fazendo quase noite e dia. 


Acho que tive um pouco depressão, durante a gravidez. Afinal ela mexe com coisas super profundas em nós. Com o acompanhamento certo, essa desorganização física, mental e espiritual tornou-se numa reorganização linda para mim, so agora, confesso.. Eu lia sobre tristeza na gravidez e aquelas palavras descompensadas que lia nos fóruns ecoavam no profundo da noite: "provoca aborto..." "esquizofrenia fetal" (juro que li isso!!).

 Depois optei por fazer terapia kk,  e decidi curtir o momento, apesar de dificil. É por um motivo. Essa bola de energia que carregamos na barriga traz coisas alucinantes. Sempre me imaginei gravida tranquila, mas foi o oposto. Para mim estar gravida foi perder o controle mental (afinal esse é o pânico não é?), e ver que existe ai uma forma diferente, a biológica. É como correr, a gente controla mas também deixa ir, deixa fluir. Ah sim , e devo dizer que apesar de sentir muito sozinha numa cidade nova e o marido sempre a viajar, ninguém desmereceu o que se estava a passar comigo. O meu marido, família acolheram minha fragilidade para eu me poder reconstruir. Afinal cada um reage de uma forma, nem melhor nem pior.